Paralisação de 24h em todo o país consolida unidade nacional da categoria bancária
Trabalhadores realizaram a ação como advertência à Fenaban pela falta de respostas às reivindicações por aumento real e melhores condições de trabalho
Bancárias e bancários realizaram, nesta quinta-feira (20), uma paralisação nacional de 24h, como advertência à Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) pela falta de respostas às reivindicações por reajustes acima da inflação nas remunerações e melhores condições de trabalho.
Neste ano, os trabalhadores do setor realizam a Campanha Nacional Unificada, para a renovação da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT). “Em oito rodadas de negociação com a Fenaban, iniciadas no começo de julho, não obtivemos nem uma proposta concreta às nossas reivindicações. Essa atitude dos banqueiros é que levou às assembleias onde aprovamos, com 90%, o dia nacional de paralisação”, explica Juvandia Moreira, que também é coordenadora do Comando Nacional das Bancárias e dos Bancários.
A dirigente destaca que, nos últimos anos, o setor bancário vem passando por um processo rápido de reestruturação com resultados agressivos sobre os trabalhadores. “Fizemos uma consulta nacional com cerca de 55 mil bancários de todo o país e 40% afirmaram que tomaram, no último ano, remédios controlados, como antidepressivos, ansiolíticos e estimulantes. O nosso levantamento corroborou um outro dado que nós sempre apresentamos para a Fenaban, nas mesas de negociação, de que os bancários compõem boa parte do índice de afastamentos pelo INSS por doenças mentais ligadas ao trabalho - em 2024, que é o dado mais recente que conseguimos obter, a nossa categoria representou 25% do total. Esse é o resultado do modelo de gestão adoecedora empregado hoje no sistema financeiro”.
O movimento sindical aponta ainda que os banqueiros estão bastante reticentes em atender às reivindicações por reajuste salarial e nas demais remunerações (como PLR, vales refeição e alimentação), acima da inflação, além de melhorias no piso e criação de um piso para os trabalhadores de Tecnologia da Informação (TI), área que mais tem crescido dentro dos bancos.
“Em 2025, o setor, como um todo, registrou lucro líquido de R$ 171 bilhões, sendo R$ 124 bilhões só dos cinco maiores bancos, que concentram a maior parte desse mercado. Mesmo nos anos recentes, durante a pandemia e pós pandemia, em que outros setores sofreram com impactos internos e externos, os bancos continuaram com um bom desempenho e em segurança. Ainda assim, estamos chegando próximo ao fim da data base (31 de agosto), quando a CCT precisará ser renovada, sem nenhuma sinalização da Fenaban de qual será o reajuste para a categoria”, observa Juvandia Moreira.
Se de um lado, os banqueiros enrolam para apresentar um índice, do outro, a remuneração média para os altos executivos dos três maiores bancos privados do país para 2026 já está prevista e será de R$ 12,5 milhões - um valor 120 vezes superior à remuneração média anual de um escriturário (somando salário, 13º, férias, tíquetes e PLR).
Digitalização e concorrência não justificam ritmo da reestruturação
Os trabalhadores contestam a tese defendida pelo setor patronal de que o encerramento de unidades físicas e postos de trabalho é consequência inevitável da digitalização e do aumento de concorrência dos bancos com empresas que passaram a prestar os mesmos serviços.
“O ramo financeiro, como um todo, não está encolhendo. Pelo contrário, o saldo dos últimos anos é positivo, é de crescimento. O único setor do ramo no sentido contrário é o bancário”, salienta Juvandia.
Entre 2015 e 2025, enquanto o setor bancário fechava 88 mil postos e 9,5 mil agências, os cinco maiores bancos aumentavam em 49% os contratos com correspondentes bancários, terceirizando seus serviços. No período mais recente, entre janeiro de 2025 e maio de 2026, tirando o setor bancário (com movimentação negativa de 15.289 vagas), o ramo financeiro apresentou movimentação positiva de 23.939 postos de trabalho.
“Os bancos tradicionais reclamam da concorrência, mas foram eles mesmos que abriram espaço para outras empresas, com a decisão de reduzir a qualidade de atendimento aos clientes por meio do fechamento de agências e da sobrecarga dos funcionários”, argumenta a presidenta da Contraf- CUT.
Segundo levantamento do Dieese, o lucro por empregado nos bancos foi de R$ 438 mil, em 2025, ano em que foram realizadas 7,2 bilhões de transações em agências bancárias físicas, número que corresponde a uma média de aproximadamente 28,6 milhões de transações por dia útil.
“O quadro real que temos hoje é que os bancos continuam batendo recordes de lucros, mas com base em salários achatados e no adoecimento de trabalhadores. É por isso que, dentro das nossas várias lutas, está a de que a sociedade saiba que os bancos não estão assumindo as obrigações para com os trabalhadores e para com os clientes. Pelo contrário, estão visando cada vez mais o lucro”, conclui Juvandia Moreira.